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uma história de beleza que vem do Japão

A literatura brasileira não teve muito pudor ao falar das flores. Mário de Andrade descreveu a vitória-régia amazônica numa crônica de 1930 com uma ferocidade sensual que ainda impressiona. O poeta da Rua Lopes Chaves falou do caule e das sépalas que ferem a mão, do perfume suavíssimo que, de perto, enjoa, e da flor que, ao envelhecer depressa, revela, no fundo, um pequeno bando de besouros besuntados de pólen, da mistura inquietante de coisas sublimes e repulsivas.

O mesmo Mário escreveu um poema chamado “Girassol da Madrugada”, em que a flor fala de um amor que não se nomeia por completo: “carne que é flor de girassol, sombra de anil”. Manuel Bandeira queria que seu último poema tivesse a beleza das flores quase sem perfume, enquanto Adélia Prado encheu sua poesia de hortênsias e rosas bravas sem deixar de ser carnal. Com ou sem perfume, cada um com sua flor.

Conto isso porque aqui no país das Terras Baixas, onde quase sempre é cinza, chuvoso e ventoso, em março as cerejeiras florescem. Impossível ficar indiferente. Não é alegria exatamente. Mas ver as sakuras floridas é uma delícia especial. A florescência dura uma semana. Às vezes menos, dependendo da força do vento – e os que se locomovem de bicicleta sabem que essa força não deve ser menosprezada.

Em 1928, Motojiro Kajii, um autor que deixou poucos contos estupendos, escreveu sobre a beleza violenta dessa floração num conto de poucas páginas, cuja frase de abertura ainda circula como uma espécie de provocação: “Debaixo das cerejeiras estão enterrados cadáveres”. Ou algo bem perto disso. A ideia era que a beleza impossível das flores só poderia vir de algo podre e denso sob a terra. Kajii morreu de tuberculose aos 31 anos, o que talvez explique a pressa em concluir e a precisão. Assim como o carnaval carrega seu avesso de dor e exaustão, a Sakura, cor-de-rosa e branca, apaziguante, que aparece hoje em calendários e cardápios cafonamente primaveris, carrega esse avesso: de um Japão sombrio, indigesto.

Agora, explicar como essas árvores chegaram à Haia é outra história. A Sakura tem sido, há mais de um século, um instrumento de diplomacia. É uma espécie de embaixatriz, assim como os pandas são instrumentos da diplomacia chinesa.

Eliza Ruhamah Scidmore era escritora, fotógrafa, viajante, jornalista, geógrafa, e a primeira mulher a integrar o conselho da National Geographic Society, em 1892. Tinha um irmão diplomata e aproveitava o fato para ir a lugares que mulheres não costumavam frequentar. Foi assim que chegou ao Japão pela primeira vez, em 1885, e de lá voltou com a ideia fixa de ver as cerejeiras às margens do Potomac, em Washington. O responsável pelos jardins públicos não se convenceu, disse não. Ela voltou no ano seguinte. Outro não. Fez isso por muitos anos, enquanto os responsáveis pelos jardins foram se aposentando, adoecendo, morrendo.

Em 1909, Eliza ganhou uma aliada inesperada. Helen Taft era natural de Cincinnati, Ohio, e havia visitado o Japão algumas vezes enquanto o marido, William Howard Taft, governava as Filipinas como administrador colonial americano. Das cerejeiras japonesas, ela guardava uma memória afetiva. Ao que parece, Eliza se dirigiu a Helen logo no início do novo governo e a primeira-dama apoiou a ideia sem hesitar. Em abril daquele ano, as árvores já estavam confirmadas.

As duas mil árvores foram despachadas com entusiasmo e havia razões para isso. A relação entre o Japão e os EUA andava tensa. O Japão tinha derrotado a Rússia em 1905 numa guerra que os Estados Unidos mediaram, mas o acordo de paz assinado por Theodore Roosevelt deixou os japoneses com a sensação de que haviam ganho a guerra e perdido a negociação. Dois anos depois, em 1907, os dois países trocaram notas diplomáticas tensas sobre a discriminação contra imigrantes japoneses na Califórnia, pessoas que os Estados Unidos tinham atraído para trabalhar e que agora queriam controlar e excluir.

As Sakuras chegaram em janeiro de 1910, e logo os inspetores do Departamento de Agricultura abriram as caixas e encontraram insetos, nematoides, pragas diversas. O presidente Taft assinou rapidamente uma ordem de queima. No Japão, o gesto foi lido como mais uma rejeição num período em que os norte-americanos aceitavam o que lhes convinha e devolviam o resto. Eliza viu tudo isso, mas não desistiu, tampouco Ozaki.

Yukio Ozaki era prefeito de Tóquio e uma das figuras mais notáveis da política japonesa, frequentemente chamado no Japão de pai do parlamentarismo e de uma espécie de deus da política constitucional, com um memorial dedicado ao lado do parlamento em Tóquio. Defensor ferrenho do governo representativo numa época em que o militarismo avançava a passos céleres, o plantio de cerejeiras em Washington era para ele um gesto genuíno de aproximação entre os dois países.

Assim foi que mandou tirar brotos das cerejeiras do rio Arakawa, enxertou em novas raízes, cultivou em solo desinfetado, e em 1912 enviou três mil e vinte árvores. Em março daquele ano, a primeira-dama Taft e a esposa do embaixador japonês plantaram as duas primeiras cerejeiras à margem do Tidal Basin. Eliza estava presente na cerimônia, depois de mais de vinte anos de insistência. Essas duas árvores ainda estão lá embora a maioria delas já tenha sido substituída.

As cerejeiras vivem, em geral, por volta de 30 anos, mas algumas variedades podem mesmo chegar a 100 anos. Ozaki viveu noventa e três anos, defendeu o desarmamento durante a guerra entre os dois países, pagando o preço pessoal por isso, e disse até o fim que as cerejeiras tinham sido o melhor momento de sua vida pública.

Depois disso, o Japão passou a doar árvores em todo o mundo. Berlim ganhou as suas em 1989. Em Amsterdam, cada uma das quatrocentas Sakuras do Kersenbloesempark, doadas pelo Clube das Mulheres Japonesas em 2000, tem um nome próprio, japonês ou holandês. Em Haia, as cerejeiras podem ser vistas sobretudo ao longo da Bankastraat e perto do Palácio da Paz, construído em 1913 para ajudar a pôr fim às guerras.

No Brasil, na década de 1970, associações nipo-brasileiras plantaram as primeiras mudas de cerejeiras no que viria a ser o Parque do Carmo, na Zona Leste de São Paulo. Como a cerejeira não é planta nativa, muitas mudas morreram; outras precisaram ser climatizadas em Campos do Jordão antes de se adaptarem. Hoje dizem que o parque tem cerca de quatro mil árvores. A Festa das Cerejeiras acontece todo mês de agosto, no pleno inverno do Hemisfério Sul. A Sakura, que no Japão anuncia a primavera em março, floresce no Brasil no meio do inverno.

E para terminar esta crônica primaveril da Sakura: em Garça, interior paulista, em 1979, um imigrante chamado Nelson Koske Ichisato resolveu plantar cerejeiras ao redor do lago artificial da cidade. A própria comunidade disse que não adiantaria, muito quente, vai dar zebra, disseram. Seu Nelson plantou assim mesmo, teimosamente e pacientemente, muda por muda. Décadas depois, o Cerejeiras Festival de Garça recebe centenas de milhares de pessoas em um único ano. No Brasil, dizem que Nelson é chamado até hoje de Pai das Cerejeiras.

Fonte: Clique aqui

Créditos do autor: Guilherme Silva

Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação

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