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Michelle Bolsonaro fez um estrago na campanha do enteado, que até agora não conseguiu reverter o prejuízo causado pelo vídeo que ela divulgou na noite da vitória do Brasil sobre a Escócia. Entre ameaças veladas – “eu disse quase tudo nesse vídeo” – e símbolos religiosos, Michelle aludiu várias vezes ao apoio do marido e mostrou firmeza ao reivindicar seu papel de liderança política diante das mulheres conservadoras e cristãs.
A fala de Michelle também apelou a um sentimento comum às mulheres de qualquer ideologia: o de ser “maltratada”, vista como “idiota” ou “insignificante”. Por isso, o vídeo tem potencial de desmoralizar o candidato Flávio Bolsonaro e de ampliar a conhecida resistência das eleitoras ao bolsonarismo, sobretudo das indecisas. Para isso, basta Michelle continuar “na sua”, como ela disse, sem se envolver na campanha deste ano, enquanto angaria apoio político e pessoal.
Há homens que confiam mais nas esposas do que nos filhos, às vezes até por subestimá-las. Indicar o filho à presidência e manter a mulher junto de si, cuidando dele, preso e doente, pode ser a melhor opção para Jair Bolsonaro, que está mais preocupado consigo mesmo e em manter seu poder sobre a direita do que com a eleição do filho, em baixa desde que seus pedidos de dinheiro a Daniel Vorcaro foram expostos.
Afinal Michelle fala pelo marido, como fez questão de frisar, por isso o recado foi para muita gente além de Flávio, dentro e fora da família. Ao que parece, é Jair quem está reivindicando seu patrimônio político. O que não significa que ela não tenha suas próprias ambições, oportunamente camufladas pelo “recato” de esposa.
A repórter Juliana Dal Piva, que fez longas e profundas investigações sobre a família Bolsonaro, publicadas em livros e podcast, relatou o papel decisivo que suas esposas tiveram em sua vida para projetar sua carreira política e organizar seus “negócios”, principalmente a segunda esposa, Ana Cristina Valle, a mãe de Jair Renan.
Se o bem sucedido esquema de “rachadinhas” de Jair deputado foi ampliado com Rogéria, a mãe dos três filhos mais velhos, eleita vereadora em 1992, isso foi replicado no segundo casamento a ponto de enriquecer o casal – foram 4 milhões de reais só em repasses dos funcionários fantasmas da família de Ana Cristina. Esse foi o valor calculado pelo MPF no processo contra Flávio Bolsonaro envolvendo “rachadinhas” e Queiroz, arquivado depois que as cortes superiores anularam provas robustas da acusação.
Ao se dizer leal ao marido e ostentar a intimidade com o “seu galego”, Michelle Bolsonaro conseguiu passe-livre para falar o que queria aos “olhos de Deus” e do marido, o nome mais forte da direita brasileira, radicalizada por ele. Foi ajudada pela inabilidade de Flávio, que ao proclamar que “nunca maltratou mulheres”, fez a denúncia ecoar e a desculpa soar esfarrapada.
Michelle, por sua vez, tem motivo para desconfiar de Jair, a julgar pela história das ex-esposas. Rogéria, citada no vídeo como “a mãe deles”, quando Michelle se referiu às ofensas de Ciro Gomes à família, depois de separada viu o ex-marido jogar o filho Carlos contra ela na campanha para a Câmara Municipal do Rio. Ana Cristina, que se separou de Jair depois de o casal acumular um patrimônio de 14 imóveis, – quase todos pagos em dinheiro vivo, como continua a fazer Flávio – chegou a acusar o ex-marido de roubo de bens e de ameaçá-la de morte depois da separação.
Como ela mesma nos lembrou, Michelle Bolsonaro sabe mais do que eles pensam – e pode falar mais do que eles supõem que ela está disposta a silenciar. Foi Michelle quem abriu as portas das igrejas evangélicas para o marido e o ajudou a conquistar os votos nesse eleitorado fundamental para as eleições. Mostrou agora que o poder dos bastidores políticos pode até estar com eles, mas o microfone e “Deus” estão com ela. E seu alcance pode ser bem maior do que os homens da família são capazes de imaginar.
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Créditos do autor: Raphaela Ribeiro
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação

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