No segundo turno, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu como um de seus focos principais os eleitores evangélicos que deram seu voto a Augusto Cury (Avante) na primeira etapa da disputa. Para isso, prepara uma estratégia dedicada a ampliar a votação do petista nesse segmento.
Membros da campanha avaliam que Cury atraiu, no primeiro turno, parte dos evangélicos vinculados sobretudo a igrejas de tradição mais antiga, como Batista, Metodista, Presbiteriana e Luterana.
Internamente, a leitura é de que esse contingente representa uma janela de oportunidade para Lula no segundo turno, uma vez que, na primeira fase, esses eleitores rejeitaram tanto o petista quanto Flávio Bolsonaro (PL).
Além desse grupo, o PT enxerga possibilidade de crescimento entre os pentecostais — segmento em que a resistência ao presidente é tida como mais forte.
De acordo com integrantes da campanha, pesquisas internas indicam que Lula recebeu aproximadamente 28% dos votos desse grupo no primeiro turno. A meta estabelecida para a reta final é atingir no mínimo 30%.
Esse avanço de dois pontos percentuais é tratado como relevante pela campanha, considerando a disputa apertada com Flávio e o peso dos evangélicos no eleitorado brasileiro.
Levantamentos feitos antes do primeiro turno já evidenciavam a dificuldade de Lula nesse segmento. Na última pesquisa Datafolha antes da votação, Flávio registrava 52% entre os evangélicos, enquanto Lula tinha 26%.
Diálogo “sem se aproveitar do púlpito”
A estratégia integra uma mudança mais ampla planejada pelo PT para o segundo turno. A campanha pretende regionalizar e setorizar a busca por votos, criando ações específicas de acordo com o perfil dos eleitores que pretende conquistar.
O eleitorado evangélico será um desses setores. A orientação, porém, é evitar transformar igrejas em espaços de campanha.
“Sem se aproveitar do púlpito”, resumiu à coluna um integrante da campanha envolvido nas discussões.
A ideia é promover encontros com evangélicos fora dos templos e intensificar a comunicação direcionada a esse público nas redes sociais.
A estratégia mantém uma orientação adotada pelo PT ainda no primeiro turno, quando a campanha já havia decidido ampliar a interlocução com evangélicos, mas evitar uma entrada forçada nos templos religiosos.
O partido também produziu durante a campanha materiais específicos para esse público, numa tentativa de reduzir a resistência histórica enfrentada por Lula entre parte das lideranças evangélicas.
Votos de Cury entram no radar
A atenção dedicada aos eleitores de Augusto Cury não ocorre por acaso.
Durante o primeiro turno, o escritor encontrou espaço entre eleitores cristãos que buscavam uma alternativa à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Levantamento BTG/Nexus divulgado em setembro chegou a mostrar Cury com 10% das intenções de voto entre evangélicos, atrás de Flávio, com 45%, e Lula, com 27%.
O desempenho de Cury entre esse público também foi associado a eleitores conservadores que não queriam votar em Flávio. Análises feitas durante a campanha apontaram crescimento principalmente entre mulheres evangélicas resistentes às duas principais candidaturas.
Cury também buscou interlocução direta com lideranças religiosas durante a campanha. Em setembro, reuniu-se com integrantes da Assembleia de Deus em São Paulo e afirmou ter uma relação de décadas com o público evangélico. Na ocasião, falou sobre família, liberdade religiosa e liberdade de expressão.
Para integrantes da campanha de Lula, o fato de parte desses eleitores ter optado por Cury no primeiro turno indica que o voto evangélico não está automaticamente consolidado em torno de Flávio Bolsonaro.
É nesse espaço que o PT pretende atuar. A avaliação é que, numa disputa decidida voto a voto, não é necessário vencer entre os evangélicos. A prioridade é diminuir a diferença para Flávio.
Por isso, a campanha trabalha com metas específicas dentro de diferentes denominações e pretende adaptar a comunicação a cada segmento, em uma estratégia que combina atuação territorial, encontros com grupos religiosos e mobilização nas redes sociais.
A aposta é que conquistar uma parcela dos evangélicos que escolheram Cury e avançar alguns pontos entre os pentecostais pode ser suficiente para reduzir uma das principais vantagens eleitorais de Flávio no segundo turno. Com: SBT News.
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