No último feriado de Páscoa, um grupo de mulheres cristãs protagonizou uma cena de profunda comoção ao ingressar em uma unidade prisional feminina localizada no estado de Goiás. A iniciativa evangelística incluiu o gesto simbólico do lava-pés, ato pelo qual as voluntárias serviram as reclusas e proclamaram o amor divino em meio ao ambiente carcerário.
A mobilização foi articulada pela entidade A.M.E., cuja coordenação está a cargo da pastora Shaila Manzoni. “Qual o propósito de adentrarmos um presídio para lavar os pés? Desejo que possamos enxergar para além da superfície dos fatos. Estamos aqui para vivenciar a Páscoa junto a essas mulheres”, declarou a líder religiosa nas dependências da penitenciária.
Na oportunidade, as integrantes da organização proporcionaram um momento de refeição festiva na Páscoa, entoaram hinos de louvor e anunciaram as Escrituras Sagradas.
“Quando contemplamos o significado da Páscoa, vislumbramos um Deus que optou deliberadamente pela proximidade. Curvar-se para tocar os pés de outrem configura-se, talvez, como uma das maneiras mais genuínas de encurtar distâncias”, refletiu a pastora.
“O gesto que ora praticamos nada mais é do que um espelhamento da conduta do Criador. Muito embora sejamos nós, fisicamente, aqui presentes, é Deus atuando em nosso ser e por nosso intermédio. Absolutamente nada possui o poder de transmutar a existência humana senão o amor proveniente do Senhor”, complementou.
Enquanto se dedicavam a banhar os pés daquelas que se encontram privadas de liberdade, as voluntárias intercediam em oração, visivelmente tocadas por replicarem o modelo deixado por Jesus Cristo.
“A mensagem do Evangelho perde sua coerência se submetida à régua do merecimento. Nós, enquanto humanidade, tendemos a nutrir predileção por um afeto metódico, que aos nossos olhos se mostre equânime, diretamente proporcional ao comportamento alheio. Deus, todavia, não se pauta por essa cartilha. Ele opera sob uma ótica distinta. A ótica do escândalo”, elucidou Shaila.
E deu seguimento ao raciocínio: “A pedra de tropeço não reside no ato físico de lavar pés dentro de uma cadeia. A verdadeira subversão está em um Deus que deliberou amar dessa forma específica. O escândalo não está contido no rito, mas sim no âmago do caráter de Deus. Ele se achega precisamente aos locais de onde nós bateríamos em retirada. Antes de haver qualquer sinal de regeneração, houve um movimento de achegamento. E essa dinâmica implode a lógica humana que insistimos em preservar.”
‘Tornar manifesto o amor de Deus’
A pastora fez questão de sublinhar que a ação empreendida não implica leniência com a transgressão das leis, mas sim a exteriorização da própria essência divina.
“Proceder ao lava-pés neste ambiente não configura uma romantização do erro cometido. Não se trata de relativizar a gravidade da falta, tampouco de fechar os olhos para as sanções e consequências. Trata-se de descortinar quem é esse Deus. Se essa atitude nos causa algum tipo de incômodo ou estranheza, quiçá seja pelo fato de o Evangelho seguir operando como sempre operou: interpelando nossa compulsão em ditar quem é, ou não, merecedor de ser amado.”
“Durante a celebração da Páscoa, não enaltecemos uma divindade que se manteve em seu posto distante, realizando uma triagem dos que eram dignos. Celebramos um Deus que mergulhou na sordidez humana, que roçou aquilo que era tido como intocável, que devotou amor antes mesmo que qualquer esboço de transformação viesse a se manifestar”, arrematou.
A trajetória da ONG A.M.E.
Fundada oficialmente em 4 de agosto de 2018, a Organização Não Governamental Ame Mulheres Esquecidas (A.M.E.) dedica-se a restituir o senso de dignidade a mulheres que se encontram encarceradas, colaborando ativamente com seu processo de reinserção no tecido social após o cumprimento de suas penas.
A gênese da instituição remonta a uma experiência onírica de Shaila Manzoni, na qual ela se visualizava no interior de um presídio feminino prestando assistência a mulheres relegadas ao esquecimento.
A primeira incursão em um estabelecimento prisional, contudo, concretizou-se apenas em maio de 2020 — um interregno de quase dois anos desde a formalização da entidade — mas representou o impulso deflagrador para o florescimento de um leque de projetos de cunho social.
Desde então, a A.M.E. passou a orquestrar ações sistemáticas, mutirões de visitação, campanhas de arrecadação de suprimentos e a mobilização de um corpo crescente de voluntários comprometidos com a causa. Em curto espaço de tempo, a organização iniciou os trâmites burocráticos para sua legalização enquanto associação de natureza filantrópica e lançou iniciativas como o programa “Recomeçar”, desenhado especificamente para fomentar a ressocialização das apenadas.
“Em meio a incursões nos presídios, ações pontuais, doações e um sem-número de adversidades, demos início ao processo de constituição formal de uma associação civil sem fins econômicos”, conforme registra o portal eletrônico da instituição.
Em menos de dois anos de efetiva atuação em campo, lograram consolidar-se como uma organização social estruturada: “Estamos plenamente cientes de que a natureza de nosso labor não figura entre as mais ‘esteticamente belas’ aos olhos da sociedade, e igualmente sabemos que essa não é a modalidade de trabalho mais ‘bem acolhida’ ou popular. No entanto, temos a absoluta convicção de que se trata de uma das frentes mais prementes e indispensáveis.”
O manifesto da entidade prossegue: “Estamos posicionados em locais onde a esmagadora maioria das pessoas não desejaria estar. Lidamos diretamente com uma parcela da população que a sociedade faz questão de manter na invisibilidade e no ostracismo. Contudo, nós o fazemos por elas, pois o Amor genuíno não pergunta ‘quem faz por merecer?’, mas sim ‘quem está precisando?’. Elas carecem de nossa presença! Aquilo que eclodiu como uma ideia embrionária, hoje é uma realidade tangível. O Amor está gerando uma colheita farta, mas ainda precisamos multiplicar os celeiros.”
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