Nunca se discutiu tanto sobre o voto evangélico. Em meio à polarização política e à disputa por cada eleitor, a comunidade cristã tornou-se um dos principais focos do debate público brasileiro. Mas qual é o limite entre a participação cidadã e o uso da fé para influenciar escolhas políticas?
Em entrevista exclusiva ao Comunhão Entrevista, Juliano Spyer, antropólogo, historiador, escritor, pesquisador e colunista da Folha de S.Paulo, autor do recém-lançado livro O Brasil dos Evangélicos, analisa a relação entre religião e poder, a responsabilidade dos cristãos nas eleições e os desafios da convivência em uma sociedade democrática.
Para Spyer, a presença evangélica na política passou por uma transformação. Antes vista com pouco interesse tanto por parte dos fiéis quanto dos próprios agentes políticos, a participação foi estimulada pela ideia de que, sem representação, outras pessoas ocupariam esse espaço.
O problema, segundo ele, está no modo como essa mobilização tem ocorrido. A entrada na política não seria, em si, o ponto de tensão, mas a forma como discursos partidários e eleitorais passam a dividir comunidades que deveriam acolher pessoas com diferentes posições. “A igreja deve receber todas as pessoas, porque a igreja é de Jesus, e não é a igreja da política”, ressalta.
Ao discutir o chamado voto cristão, ou voto evangélico, o antropólogo questiona a ideia de que exista uma única escolha eleitoral compatível com a fé evangélica. Ele considera prejudicial transformar a religião em instrumento de pressão sobre a consciência dos fiéis, especialmente quando o voto é associado ao medo de desagradar a Deus ou de sofrer alguma condenação espiritual.
Para Spyer, afirmações que apresentam um lado político como o único possível para um cristão podem representar uma tentativa de apropriação do cristianismo por interesses específicos. Em sua leitura, a responsabilidade social do eleitor passa pela própria consciência, e não pela submissão a uma orientação política apresentada como verdade religiosa.
A presença de candidatos em cultos e o uso do púlpito durante períodos eleitorais também entram na conversa. Spyer afirma que sua primeira referência para avaliar essas situações são as regras da Constituição e da legislação eleitoral. O antropólogo distingue, porém, o pastor enquanto cidadão do pastor no exercício de sua função religiosa.
Quando a autoridade espiritual utiliza profecias, orações ou a condução do culto para favorecer um candidato, pode ocorrer uma confusão entre o espaço sagrado e o político.
Essa mistura, avalia, cria constrangimento para quem frequenta a igreja e tem outra preferência eleitoral. A crítica não significa, para ele, defender o afastamento dos evangélicos da vida pública. Spyer considera legítima a busca por representação política e afirma que os cristãos devem ter os mesmos direitos de qualquer brasileiro.
A questão está no respeito à laicidade do Estado e à diversidade religiosa. Em sua avaliação, uma presença evangélica numerosa no Congresso não constitui problema quando representa a pluralidade desse grupo e convive com outras tradições.
O risco aparece quando a representação passa a atacar, ridicularizar ou tentar restringir a expressão de outras religiões, contrariando a própria história de defesa da liberdade de consciência associada ao cristianismo evangélico.
A polarização, entretanto, não se limita ao ambiente institucional. Ela alcança famílias, amizades e comunidades religiosas, muitas vezes alimentada pela dinâmica das redes sociais.
O entrevistado observa que o ambiente digital favorece conteúdos escandalosos, manifestações de raiva e discursos que apontam culpados, enquanto soluções mais complexas recebem menos atenção. Esse mecanismo, segundo ele, atinge tanto pessoas de dentro quanto de fora das igrejas.
O resultado é uma convivência marcada pelo afastamento, pela ruptura de relações e pelo que chama de violência simbólica, quando a divergência política se transforma em constrangimento ou linchamento de reputação. “Sofremos todos com esse estado de coisa em que você não pode falar com o seu irmão ou com a sua irmã”, lamenta.
Autor de O Brasil dos Evangélicos, Spyer reúne na obra cinco anos de diálogos contínuos com cristãos e não cristãos sobre o universo evangélico brasileiro. Seu interesse pelo tema começou durante uma pesquisa antropológica em um bairro pobre do Brasil, onde viveu com a família por 18 meses.
A experiência revelou a presença do cristianismo evangélico na vida de trabalhadores e famílias, despertando uma investigação que resultou em livros anteriores e, agora, em uma obra dedicada a diferentes dimensões dessa comunidade: vida familiar, pertencimento às igrejas e relação com outras expressões religiosas. O livro é apresentado pelo bispo Adner Ferreira, da Assembleia de Deus Ministério Madureira.
A responsabilidade, em sua visão, passa por reconhecer que outras pessoas podem ter algo a ensinar, evitar o apedrejamento verbal e buscar inspiração na maneira como Jesus lidava com quem pensava de forma diferente.
Ao comentar o peso do voto evangélico nas eleições, Spyer atribui a ele uma participação aproximada de 3% a 3,5%, ressaltando que o termo “voto evangélico” pode sugerir uma homogeneidade que não corresponde à diversidade observada nas últimas disputas presidenciais. Com: Comunhão.
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