No Brasil, diretor de “Som da Liberdade” diz que fazer o filme “foi um chamado”

O diretor de “Som da Liberdade” (Sound of Freedom, em inglês), Alejandro Monteverde, e alguns integrantes da produção estiveram no Brasil para divulgar o filme cristão e participar das pré-estreias no Rio e em São Paulo.

Em entrevista ao Guiame, Alejandro falou sobre como decidiu transformar a história real de Tim Ballard em um filme e como conseguiu transportar um drama tão sensível e pesado, como o tráfico de crianças, para as telas do cinema.

O filme, cujo protagonista é Jim Caviezel (conhecido por seu papel em "A Paixão de Cristo"), conquistou reconhecimento internacional ao narrar a história da desarticulação de uma rede de pedofilia por parte do ex-agente norte-americano Tim Ballard.

O título do filme faz alusão a um momento em que um grupo de crianças resgatadas das mãos dos traficantes começam a brincar, cantar e batucar juntas. Uma das cenas, inclusive, mostra quando elas estão cantando o seguinte refrão logo após o resgate: “Nós crianças de Deus não estamos à venda”.

Um dos personagens, chamado Vampiro (interpretado por Bill Camp), vira-se para o protagonista e diz: "Você reconhece este som? Este é o som da liberdade."

Depois disso, o protagonista embarca em uma nova jornada para resgatar uma das meninas que ainda está em perigo, concluindo sua missão no filme, descrito como uma história de “fé e devoção”.

Guiame: Qual foi a maior motivação por trás da decisão de transformar a história real de Tim Ballard em um filme?

Alejandro Monteverde: Para sair da escuridão para o triunfo, é preciso agir e não ficar sem fazer nada. Eu tinha ouvido e lido uma notícia com relação a esse assunto, que é o tráfico infantil, e foi assim que conheci e tomei contato com essa realidade. A partir de então, decidi que tinha que fazer alguma coisa. Foi como um chamado tomar contato com essa história e a maneira que encontrei para agir. Então comecei a escrever o roteiro e passei a conhecer esse problema sobre tráfico de crianças.

G.: Como foi abordar um tema tão complexo e pesado, fazendo com que essa história pudesse ser passada para o expectador de forma que não se sentisse acuado ao tomar contato com essa realidade tão difícil?

A.M: Esse foi um desafio que se colocou presente logo de cara. Percebi de imediato que era um desafio enorme porque eu mesmo assisti uma série de filmes sobre esse tema e, curiosamente, eu nunca conseguia terminar, por serem muito difíceis de digerir. Então, eu sabia que era um desafio inicial e eu queria que o público pudesse se beneficiar da magia do cinema e que não apenas que chegassem até o fim do filme [por uma obrigação], mas que desejassem chegar até o fim.

G.: E qual foi sua estratégia para isso?

A.M.: Eu pensei como se fosse fazer um show na Broadway, onde eu teria que tentar apresentar uma narrativa que fosse visualmente atraente, mostrando uma viagem pela escuridão através de um veículo que fosse baseado em beleza e esperança. E foi assim que eu consegui chegar até a plateia.

Guiame entrevista diretor e produtores de Som da Liberdade, em SP. (Foto: Assessoria/360 WayUp)

G.: Como foi reunir pessoas para o elenco, produtores e todo o time que participou do filme, diante de uma temática tão complexa e até mesmo perigosa?

A.M.: Para mim existem dois tipos de filmes: aquele que eu quero fazer e aquele para o qual eu sou chamado a fazer. Com relação a esse filme especialmente, eu não tenho dúvidas de que foi um chamado. Eu fui chamado para fazer esse filme. Isso se revelou também na maneira como isso contagiou o restante da equipe. Foi como uma espécie de efeito de uma onda, uma coisa foi levando a outra. Até a minha esposa me perguntou isso: Mas onde você quer chegar com esse filme? Como é que você vai fazer uma coisa tão complicada, tão complexa? Mas tudo aconteceu de uma maneira muito orgânica. Para minha surpresa essa coisa realmente se propagou como uma onda ou como uma cascata, afetando atores da equipe, elenco, financiadores.

G.: Como isso se deu?

A.M.: O próprio governo da Colômbia ajudou com dinheiro para a gente filmar no país. A Colômbia tem muito pouco recurso para esse tipo de atividade, mas nós ganhamos esses recursos do governo, que comprou o projeto. Então, envolveu todos que estão no projeto e, claro, os irmãos Harmon (Neal Harmon e Jeffrey Harmon, da Angel Studios), que também foram afetados por essa onda de entusiasmo resultando na compra do projeto.

G.: O filme tem sido um sucesso estrondoso nos Estados Unidos e chegou em primeiro lugar na América Latina. Você acredita que isso é uma prova de que o público está cansado de uma cultura cada vez mais ‘woke’ e menos alinhada com a realidade da maior parte da sociedade?

Jeff Harmon: É que o filme é bom e ponto (risos).

Alejandro Monteverde: A gente tem que analisar os dados e eles não corroboram essa visão de um filme mais conservador. Os dados que tenho são de que 20 milhões de pessoas assistiram filme. Você não consegue colocar 20 milhões dentro de uma única caixinha. Então os dados até agora mostram uma faixa da audiência com 35% do público sendo hispanos, em torno de 20 e poucos por cento democratas, mais uma porcentagem alta de independentes e uma porcentagem interessante também de conservadores. Ou seja, não cabe tudo na mesma caixinha. De qualquer maneira, eu não conheço ninguém desse grande universo de público que seja a favor de tráfico de crianças. Não é possível ser a favor disso, não é? Então eu quero enfatizar que parte da mídia buscou criar esse aspecto mais divisivo, de divisão mesmo.

G.: Como foi isso?

A.M.: Fizeram isso polarizando a recepção do filme e criando rótulos, nos quais não concordamos. Mas nesse momento, aconteceu uma coisa interessante: o público veio em nossa defesa, dizendo que o filme era bom. E eu aplaudo essa atitude do público, porque é isso que me interessa. Me interessa a opinião do público. Eu analisei os números de um agregador de críticas de cinema e vi que havia ali uma diferença entre o que os críticos acharam e o que o público estava achando do filme. No primeiro momento, aquilo me deixou meio chateado, mas depois eu vi que estava conseguindo falar diretamente com a plateia, com o público, e é isso que me interessa. No fim das contas, eu sou um cineasta, um realizador, eu faço filmes, eu acredito na magia do cinema para levar o público nessa jornada que, nesse caso específico, levará a travar diálogos importantes, interessantes e relevantes para a sociedade de hoje.

Fonte: Guia-me